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Mostrando postagens de 2009

Último ato

Senhoras e senhores, ele vai até a boca de cena, olha em direção à cabine, respira fundo e esquece a primeira fala. Uma pequena pausa e então um tiro. Ele cai de maneira nada dramática. O Diretor, irritado, manda fechar a cortina. Nenhum aplauso. Até hoje ninguém sabe se foi o ator ou o personagem que matou o corpo. Suicidou-se de improviso.

O lado mais quente

O vento nas árvores, a garoa nos vidros. Ninguém nas ruas, na ponte, no inverno. Nenhuma criança nos brinquedos da praça. Ficou parado, de pés encostados na grama molhada, sentindo o calor de cada gota de água gelada que escorria pelo pescoço. Então soltou os braços. Tirou a única camisa, fechou os olhos e desaguou as lembranças mais frias.

Esses adultos

O marido chega em casa e não consegue esconder o choro na frente da família. “Estou com uns problemas, filho. Não é nada, depois a gente brinca”. Entra no quarto com a esposa. Conversam. A mãe sai e o garotinho pergunta pra ela se o pai já resolveu todos os problemas.

Apenas vizinhos

Ex-mulher reencontra ex-marido no elevador do prédio. Perguntam se está tudo bem e coisa e tal. Ela aperta o 14 de sempre. Então ele aperta o 11. E ninguém fala mais nada. Ele não deve satisfações. Ela sempre soube. Ele diz tchau e sente-se horrível, culpado. Ela desce no 14 e vai ao 16 pela escada. Ele nunca desconfiou.

Avenida

Chovia forte, a cidade um caos. Desligou o carro. Desceu e foi nadando até o cruzamento. Parou todos os carros já parados. Cansou dos burros, dos mesmos caminhos, dos fios pendurados entre os postes. - Aqui não há esperança. Mergulhou no asfalto e sumiu.

Caralho

Não gosto de quem diz palavrão à vontade, é só pra ser cool . Filho da puta por filho da puta eu também posso falar. Cuzão, porra, bunda. Agora coloca o filho da puta em um lugar decente, com roupa, comida e vida de gente. Isso ninguém faz.

Reencontro

sequência do pequeno texto "Encontro" Eu não sabia o que estava fazendo sozinho em Boston. Tentei disfarçar e entrei em uma fila de bilheteria de teatro. Observava as pessoas, aquecia as mãos e fazia cara de frio, até que os ingressos baratos acabaram - e eu não compraria os mais caros. Seria indiferente continuar parado ou sair caminhando para qualquer lugar. No lugar mais longe, na tarde mais longa, o que sobrou fui eu. Quase vinte anos depois, nos encontramos novamente, eu e esse desconhecido. Decidimos caminhar de madrugada para o norte da cidade. Não importa até onde chegamos, lá foi o lugar mais longe.

Encontro

Fico me olhando através desse vidro. Ninguém pode me ver. Nem eu, você, ali dormindo no colo da enfermeira. Será que eu lhe acordaria pra falar de duas décadas? No fim acabaria perguntando sobre esse seu presente que eu não lembro. Talvez eu dissesse algumas poucas coisas; que você ainda será vivo e carregará nas mãos algum conhecimento e seus segredos. E que, fora isso, o seu futuro vai continuar cheio de incertezas. Não vai mudar muita coisa. O resto são detalhes e eu não estragaria as suas pequenas surpresas, até porque você ainda não entenderia nada e começaria a chorar no meu colo. Será que eu choraria no meu colo?

Você merece um drama

Bata a porta e chute o balde. Tire o salto. Coloque o roupão, fume e afunde no corredor. Derrube o vinho. Desligue na cara. Puxe a toalha, vire a mesa. Quebre os pratos, os copos, os vasos. Fure os quadros e arranque a cortina. Grite no corredor. Risque o carro, derrube o portão. Suba na calçada, suba no palco, pare a banda e proponha um brinde. Diga uma verdade. Jogue o dinheiro na cara.   Rasgue o cheque, rasgue a roupa. Dê as costas. Fuja nua pras Bahamas. .

Nenhuma

Há algum tempo você percebeu que não é tudo isso. Aos poucos a quantidade de amigos diminui e nota que algumas pessoas não gostam de você. Conhece pouco sobre a história, as artes e trata com superficialidade as discussões atuais. Analisa tudo o que já fez e percebe que deveria ter aproveitado melhor o tempo ou simplesmente começado de outro jeito. Então você se acha sem conteúdo, desnecessário. Inclusive se pergunta por que está lendo esse texto bobo. E, após analisar tudo isso, chega à seguinte conclusão.

Janela de avião

É hora de partir. Encosto a cabeça na janela e tento escapar entre nuvens. Esquecer. Mas a madrugada avança e me aperta a cada milha. Inevitável queda livre. Sinto afundar em todo o Atlântico por trás desse escuro. Agora, perdido em ondas gigantes, eu me entrego. Voo como avião em direção à tempestade. E no abraço firme das minhas asas, sinto toda a imensidão. Sinto em mim, você.